SAMI DOUEK - TUDO VERDADE
Sami Douek é engenheiro acústico e contador de histórias, com uma trajetória marcada por profundidade cultural e sensibilidade histórica. Natural do Egito, cidade do Cairo, nasceu numa família multicultural, todos essencialmente europeus. Sami deixou o país natal com 10 anos de idade rumo à Paris com sua família e atualmente vive em Santos, São Paulo, e tem se dedicado a preservar a memória da sua grande família Douek exilada no Brasil, França e Suíça.. Douek é conhecido por seu trabalho com caixas acústicas e por suas reflexões sobre a escuta musical, abordando temas como musicofilia e audiofilia.
Ele aplica sua expertise de forma profundamente sensível e técnica, transformando a escuta em uma experiência quase espiritual. Sami também é participante frequente de debates sobre tecnologia e estética sonora, sempre com uma abordagem humanista.
Entre suas realizações marcantes estão caixas acústicas com identidades personalizadas, projetadas com materiais sofisticados e técnicas precisas para reproduzir nuances musicais com fidelidade emocional. Sami busca timbres autênticos, especialmente de instrumentos como piano e percussão, e já desenvolveu modelos com diafragmas de materiais que oferecem resposta precisa a transientes. Ele explora materiais como Rohacell para criar timbres precisos e emocionais.
Em uma audição, um amigo descreveu uma de suas caixas como “feminina” — metáfora que adotou para falar da identidade sonora dos equipamentos. Douek diferencia essas “personalidades sonoras” entre “caixas femininas” e “masculinas”, baseando-se na textura do som e na resposta harmônica. Seu trabalho é reconhecido por audiófilos e músicos como altamente musical, mais do que apenas tecnicamente fiel.
Douek tem se envolvido em projetos que misturam memória, som e identidade com uma abordagem profundamente afetiva e técnica. Uma das iniciativas mais relevantes é A Grafia do Som, ciclo de debates realizado no LAB Procomum, em Santos, onde Sami lidera conversas sobre música, tecnologia e escuta. No evento, ele aborda a relação entre música digital e analógica, e de que forma os transdutores (drivers ou alto-falantes) são essenciais para traduzir o som em linguagem humana. Segundo a tese de Douek, o som digital é uma abstração que precisa ser reconectada à experiência sensorial. A metamorfose do som digital, a identidade sonora das máquinas e a desmaterialização da mídia física estão ainda entre os temas investigados pelo engenheiro acústico.
Uma passagem tocante na sua trajetória foi a recuperação de uma vitrola Philips dos anos 1960, que Sami cobiçava desde a adolescência. Ao restaurá-la e ouvi-la tocar novamente, ele vivenciou uma experiência de reconexão afetiva com sua juventude, mostrando como o som pode transcender a técnica, evocando lembranças profundas. Para ele, a tecnologia deve respeitar essa dimensão afetiva.
Nos projetos de Sami, a relação entre tecnologia e identidade sonora é profunda e quase filosófica. Ele não vê a tecnologia como um fim, mas como um meio para revelar a alma do som, considerado por ele uma linguagem humana. Douek afirma que, embora vivamos cercados por códigos binários, o som é originalmente analógico e humano. Para ele, os transdutores são os verdadeiros intérpretes entre o mundo digital e a experiência sensorial do ouvinte.
Ele teoriza que a música digital é uma abstração — uma representação que precisa ser reconectada à escuta afetiva. A tecnologia, neste contexto, não substitui a experiência, mas a traduz. Douek acredita que não existe “música digital” no sentido pleno, pois tudo, no fim, é percebido de forma analógica pelo corpo humano.
Sami também propõe o conceito da alta musicalidade, em contraste ao da alta fidelidade acústica. Para além de buscar apenas a fidelidade técnica, ele defende que a escuta não depende somente de especificações técnicas, mas da memória afetiva e da sensibilidade do ouvinte. Segundo ele, a fidelidade verdadeira está nas referências emocionais que cada pessoa carrega, e a tecnologia deve servir à emoção, não ao número.
Carol Flores Hermida, 21 de julho de 2025,